Esta secção constitui uma revisão do trabalho académico escrito por Samer Abu-Saifan’s intitulado ‘Social Entrepreneurship: Definition and Boundaries’

‘Whenever society is stuck or has an opportunity to seize a new opportunity, it needs an entrepreneur to see the opportunity and then to turn that vision into a realistic idea and then a reality and then, indeed, the new pattern all across society. We need such entrepreneurial leadership at least as much in education and human rights as we do in communications and hotels. This is the work of social entrepreneurs’

Bill Drayton Founder of Ashoka: Innovators for the Public

Como os investigadores indicam, o empreendedorismo social constitui um campo que se vai caracterizando pela falta de limites concretos e uma definição comum, encontrando-se assim em busca de uma definição clara para adquirir legitimidade académica. Simultaneamente, é necessário que o empreendedorismo social obtenha um quadro teórico através do qual ele possa estar vinculado a teorias do empreendedorismo clássico (Samer Abu-Saifan, 2012).

Relativamente à definição de empreendedorismo puro, a maioria dos investigadores académicos reconhece o valor da noção, na medida em que sustentam que atualmente se está a converter num fator importante que inevitavelmente contribui para a prosperidade das sociedades modernas; independentemente de essas atividades empreendedoras serem aplicadas em economias definidas por fatores de produção, pela geração de eficiência ou pela inovação, o impacto final permanece exatamente o mesmo: redução das percentagens de desemprego, tendência ascendente na criação de inovação e aumento das alterações nas estruturas económicas, afetando simultaneamente de forma positiva tanto a produtividade como a competitividade económica saudável (UNCTAD, 2004; tinyurl.com/d3xkdj4).

Por outro lado, quando nos referimos à categoria especial de empreendedorismo, denominada “the social entrepreneur ‘combines the passion of a social mission with an image of business-like discipline, innovation, and determination commonly associated with, for instance, the high-tech pioneers of Silicon Valley” (Dees, 1998; tinyurl .com / 86g2a6).

Apesar de a noção de “empreendedor social” estar a ganhar reconhecimento e popularidade, ainda existe, por outro lado, uma tendência registrada de incerteza em relação ao modo de operação de um empreendedor social. Como Samer Abu-Saifan, 2012 questiona, ” The term social entrepreneur is ill-defined (Barendsen and Gardner, 2004: tinyurl.com/75jr5sp; Weerawardena and Mort, 2006: tinyurl.com/7erg5lz), it is fragmented, and it has no coherent theoretical framework (Weerawardena and Mort, 2006)”, ao mesmo tempo que aponta a necessidade de definir os empreendedores sociais em consistência com as teorias validadas sobre o empreendedorismo. Por essa razão, tomamos de exemplo a tabela abaixo de Samer Abu-Saifan que contém diferentes definições das noções de “empreendedorismo” e “empreendedor” ao longo do tempo, a fim de serem posteriormente comparadas com as definições correspondentes de “empreendedorismo social” e “empreendedores sociais”.

Nos últimos quinze anos, todas as histórias de sucesso de pessoas denominadas de “empreendedores sociais”, que visam a criação de soluções concretas de problemas socioeconómicos cruciais, têm funcionado como uma forma de legitimação do termo “empreendedorismo social”. Um exemplo concreto constitui o Social E Lab que foi criado e promovido em 2004 pela Universidade de Stanford, com o objetivo de promover a forma tradicional de empreendedorismo e seus principais princípios para a resolução de vários problemas globais. Alguns outros casos que são frequentemente propostos pela bibliografia académica como modelos bem-sucedidos de empresas sociais incluem Ashoka (ashoka.org), OneWorld Health (oneworldhealth.org), The Skoll Foundation (skollfoundation.org) e a Fundação Schwab para Empreendedorismo Social (http://schwabfound.org).

A sua lealdade ao abordar e resolver problemas sociais fundamentais para satisfazer os desafios sociais e melhorar os padrões e a qualidade de vida quando se trata de grupos sociais marginalizados, posiciona os empreendedores sociais no coração das sociedades (Zahra et al., 2008). Ao contrastar várias definições de empreendedores sociais com os correspondentes de empreendedores puros, concluímos que estes últimos se concentram principalmente na criação de riqueza económica, enquanto o empreendedor social opera de forma a satisfazer todos os critérios estabelecidos pela missão social primitiva que ele quer cumprir, desenvolvendo assim uma série de fontes e estratégias geradoras de receitas para absorver o valor social (Samer Abu-Saifan, 2012).

Samer Abu-Saifan foi um dos primeiros investigadores académicos que tentou formular uma definição concreta de empreendedor social, de modo a estabelecer fronteiras e lutar contra a “constantly perceived vagueness” que caracteriza o campo específico, na tentativa de atribuir uma espécie de “legitimidade” académica para a noção de “empreendedor social”. Como ele declara, “[t]he social entrepreneur is a mission-driven individual who uses a set of entrepreneurial behaviours to deliver a social value to the less privileged, all through an entrepreneurially oriented entity that is financially independent, self-sufficient, or sustainable”, enquanto prossegue subsequentemente para a formulação de quatro pontos – pilares básicos que distinguem os empreendedores sociais de outros tipos de empresários.

Em primeiro lugar, os empreendedores sociais são orientados por missão, operando no contexto da criação e divulgação do valor social para os grupos sociais menos privilegiados. Em segundo lugar, eles têm a capacidade de agir de forma empresarial dentro de um conjunto de características pré-determinadas que os diferenciam de outras formas de empreendedores (Tabela 2). Além disso, os empreendedores sociais funcionam através de organizações orientadas para o empreendedorismo, que operam dentro de um contexto que reforça a inovação e abertura. O último pilar básico é a função social dentro de organizações financeiramente independentes, através das quais eles projetam e aplicam estratégias de rendimentos ganhos, tentando entregar o valor social pré-determinado aos grupos sociais não servidos, mantendo-se economicamente sustentáveis e autossuficientes. Este objetivo está a ser alcançado, como Samer Abu-Saifan descreve, pela mistura de atividades que são social ou lucrativamente geridas e que permitem às organizações limitar a sua dependência de doações ou fundos governamentais (Bacq et al. , 2011).

A próxima tabela que Samer Abu-Saifan cita, indica as características inerentes tanto aos empreendedores sociais como aos que são orientados para o lucro, enquanto verifica separadamente as características que são mais comuns para cada tipo de empreendedor.

No entanto, devido à insuficiência de atribuir definições claras, observou-se que alguns outros campos ou disciplinas, como instituições de caridade, ativistas sociais, filantropos, ambientalistas, etc. – frequentemente – e erroneamente – são intitulados como “empreendedores sociais”, criando assim a necessidade de definir limites concretos dentro dos quais um empreendedor social opera e que são capazes de distingui-lo de qualquer outra forma de empreendedores e outros tipos de praticantes socialmente orientados. Como Samer Abu-Saifan afirma “according to the Skoll Centre for Social Entrepreneurship, the definition of social entrepreneurship should not extend to philanthropists, activists, companies with foundations, or organizations that are simply socially responsible” (tinyurl.com/yd8ggyq). Embora todos esses agentes sejam necessários e valorizados, não são empreendedores sociais, destacando-se, portanto, a necessidade de posicionar o empreendedor social no “espectro do empreendedorismo social” de acordo com duas estratégias comerciais principais:

  1. Sem fins lucrativos com estratégias de rendimentos auferidos: uma empresa social que realiza atividades empresariais sociais e comerciais híbridas para alcançar a autossuficiência. Neste cenário, um empreendedor social opera uma organização social e comercial; As receitas e os lucros gerados são utilizados apenas para melhorar ainda mais a entrega de valores sociais.
  2. Fins lucrativos com estratégias orientadas por missão: um negócio de propósito social que realiza atividades empreendedoras sociais e comerciais simultaneamente para alcançar sustentabilidade. Nesse cenário, um empreendedor social opera uma organização social e comercial; a organização é financeiramente independente e os fundadores e os investidores podem beneficiar do ganho monetário pessoal (Samer Abu-Saifan, 2012).

EMPREENDEDORISMO SOCIAL: O QUE É?

O empreendedorismo social é um conceito que está na moda na sociedade actual, tornando-o, portanto, cada vez mais popular. Essa é a razão pela qual este conceito atrai cada vez mais atenção em todo o mundo, nomeadamente na comunidade académica e no setor económico. Pode-se dizer que o empreendedorismo social é uma expressão moderna, uma espécie de “nova moda”. No entanto, o mesmo não se aplica ao fenómeno em si, já que sempre houve empreendedores sociais, embora estes últimos não se tenham distinguido como tal.

Um bom exemplo da última afirmação é o grande número de instituições solidárias que todos conhecemos há muito tempo. Essas instituições foram criadas através de iniciativas desta natureza, mas nunca foram associadas ao tema do empreendedorismo social. Esta expressão adquiriu uma nova ênfase, sendo, portanto, considerada como um movimento dinâmico e revolucionário que responde aos muitos problemas enfrentados pelas sociedades modernas. Está também a transformar a forma como pensamos e interpretamos a sociedade em geral. Isso sobrepõe-se à noção de responsabilidade social, já familiar para as empresas, em particular as maiores corporações. Estes últimos estão a assumir progressivamente o dever moral de contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade de que são parte.

CRIAÇÃO DE VALOR SOCIAL

O empreendedorismo social destaca-se por uma maior objetividade e está, portanto, muito focado no papel do empreendedor como agente social, bem como nas metodologias seguidas de perto pelo primeiro, a fim de atingir o seu objetivo principal: a criação de valor social! É inegável que essas práticas levam a um conceito mais estimulante, que revela um território mais amplo e contribui decisivamente para a superação de vários limites preexistentes.

RETORNO FINANCEIRO OU RETORNO SOCIAL?

Basicamente, o empreendedorismo social é sobre inovação e impacto, mas não sobre lucro. Isso não significa que ambas as formas não podem coexistir, uma vez que os projetos socialmente desenhados que geram receita também podem ser incluídos neste tipo de empreendimentos sociais. Além disso, várias características intrínsecas de um “empresário comercial” (iniciativa empresarial, inovação, competências de gestão, alavancagem de fundos e outros recursos, sentido de oportunidade, etc.) são igualmente essenciais para um empreendedor social de sucesso. A diferença é que o último desenvolve o seu trabalho no contexto de uma missão social que ele pretende realizar, além de enfrentar outros desafios sociais que não podem ser negligenciados. O impacto da sua declaração de missão afeta a maneira como as oportunidades são identificadas e avaliadas, sendo o lucro gerado a partir dessas ações apenas como um meio para um fim.

Referências

Bacq S., Hartog C., Hoogendoorn B. & Lepoutre J. (2011). Social and commercial entrepreneurship: exploring individual and organizational characteristics. Scales Research Reports H201110, EIM Business and Policy Research, The Netherlands, Google Scholar

  • Barendsen, Lynn and Howard Gardner. (2004),Is the Social Entrepreneur a New Type of Leader?, Leader to Leader, V. 34, p. 43-50.
  • Bikse V., Rivza V., Riemere I., (2015) The Social Entrepreneur as a promoter of Social Advancement, Procedia- Social and Behavioural Sciences, Volume 185, 13 May 2015, p. 469-478 http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1877042815021989
  • Dees Gregory J.,(1998) Social Enterprise: Enterprising Non-Profits, Harvard Business Review, https://hbr.org/1998/01/enterprising-nonprofits
  • Samer Abu Saifan (2012) Social Entrepreneurship: Definitions and Boundaries, Technology Innovation Management Review, February 2012
  • Zahra et all, (2008), Globalization of Social Entrepreneurship Opportunities, Strategic Entrepreneurship Journal, 2(2): 117:131